Era inverno em Pelotas. Eu visitava minha família depois de anos morando fora da cidade. Num ímpeto de passar memórias adiante, minha vó decidiu abrir uma caixa de papelão: papeis, notas, fotos, cartas, cartões postais. Cozinheira de mão cheia, aquela típica vó da mesa farta e bolo quentinho, naquela tarde na cozinha dela eu encontrei o que nem sabia que estava procurando: o seu Caderno de Receitas.
As manchas escuras sobre o papel amarelado ainda não tinham apagado as listas de ingredientes nem o modo de fazer de comidinhas que pra mim são sinônimo de afeto. De casa. As explicações vêm em detalhes e medidas muito próprias da minha vó, “três dedos disso”, “três dedos daquilo” – o que em tradução livre seria uma pitada (afinal, usamos três dedos para pinçar uma pitadinha de alguma coisa, não é mesmo?).
Cuca de goiabada, bolo de chocolate, pão do santo, pão caseiro, broa de milho. Deu vontade de morar nesse Caderno. Ali tem a memória da comida e do prazer proporcionado por cada um daqueles preparos, mas também tem outra coisa: ali mora uma história familiar contada em listas e linhas tortas. O testemunho de uma época e das conversas entre vizinhas que trocavam muito mais do que um quilo de açúcar.
Um Caderno de Receitas é o registro de um modo de existir e isso é coisa que inteligência artificial nenhuma consegue contar pra gente.

Em uma pesquisa intitulada “Cadernos de Receitas e Histórias de Vida: consolidando memórias e saberes tradicionais”, as pesquisadoras Ana Maria Costa Beber e Susana Gastal refletem sobre a gastronomia como uma expressão cultural e histórica não apenas de uma população inteira mas de indivíduos, suas famílias e comunidades. A história microscópica de uma rua, um bairro onde conhecimentos foram trocados, uma técnica criada por uma dona de casa que ensinou a filha, a neta e a amiga um novo jeito de deixar o bolo fofinho. O Caderno é um objeto que permite o não esquecimento da culinária tradicional e as mãos que a construíram. Permite que o saber fazer não seja perdido.
Mas como ainda falar sobre a culinária de papel, aquela em que o bolor disputa espaço com as letras de 2 xícaras de farinha, como falar de tudo isso nessa nossa época, o tempo da velocidade 2.0 e das coisas intocáveis? Como resgatar a escrita alimentar quando basta tocar na tela do celular para ser soterrado por uma avalanche de receitas nos mais diversos formatos e mídias sociais?
Olá, quer aprender a fazer morango do amor e olha essa receita proteica e esse brigadeiro rosa cheio de corante e amanhã vai aprender outra coisa e depois outra coisa e vai salvar todas as receitas numa pasta online nunca mais acessada e um dia… um dia o que vai restar como lembrança coletiva?

Estamos em 2025 e, sim, o Caderno ainda é rei. A pesquisa de Ana Maria Costa Beber e Susana Gastal começa contextualizando o mundo contemporâneo das mídias digitais para então dizer que os Cadernos escritos à mão e passados de geração para geração são mais do que dicas de praticidade culinária: são um lugar. Um espaço para onde se pode voltar e entender como uma vida fluida aconteceu. Nos Cadernos é fixada, quase sempre por mãos femininas, uma fonte riquíssima para estudos históricos, antropológicos e sociológicos. Se fixam, também, sentimentos de pertencimento a uma vida coletiva.
Desde a escolha dos ingredientes, o modo de instruir a mão de quem lê o Caderno, mão que logo em seguida estará imersa nos alimentos. Esse lugar ou objeto é o oposto de efêmero: é um relacionamento íntimo e de longa duração entre uma sociedade e sua comida, uma forma de construir laços com o que colocamos no prato e com toda ecologia ao redor.
Pelos Cadernos de alguém é possível saber as mudanças de safra e até de economia, quando na escrita de uma receita, por exemplo, se percebe o esforço de poupar certos insumos muito caros ou de criar novos rituais. E quando falamos de rituais na cozinha, historicamente e ainda hoje, falamos massivamente das mulheres. Infelizmente. E isso significa, muitas vezes, falar de subalternidade.
Para entender esses movimentos, as pesquisadoras analisam os Cadernos de Gema, uma senhora de 76 anos descendente de italianos. Gema é autora de três Cadernos de Receitas que hoje fazem parte do acervo de museu étnico localizado em uma vila rural no município de Bozano, no Rio Grande do Sul. Os três Cadernos de Gema contornam os limites de sua vida e da vida da sociedade da época, trazendo nas entrelinhas das receitas os movimentos criados em torno de uma mulher.
O chamado Caderno Velho de Receitas era o que trazia as receitas originais de seus pais e avós, antes do seu casamento. Depois veio o Caderno Pós-casamento, com suas próprias receitas e mudanças que provocou nas receitas originais, adaptando ao gosto da família do marido, incluindo os sogros — aqui vemos as responsabilidades acumuladas na cozinha e no ato de agradar pelo paladar. Por fim, Gema escreveu o Novo Caderno de Receitas, em que colecionou as receitas que quis. Neste último, a autora não se sujeitou mais à hierarquia dos pais e dos sogros, mas ainda precisava dar conta dos gostos do marido e dos filhos.
O interessante é que Gema usava os Cadernos também para anotar outros movimentos da vida, como o enxoval dos bebês. É quase como se a verdadeira receita buscada fosse essa: como viver? As transformações pessoais acompanham o modo de viver de uma época, já que quando falamos de Gema também falamos de Maria, Lúcia, Aparecida, Francisca, Patrícia e Lídia.

Lídia é o nome da minha vó, autora do Caderno que encontrei na caixa de papelão. Imigrante portuguesa, há 60 anos veio para o Brasil com meu vô e dois filhos embaixo do braço. Também trouxe muitas receitas na cabeça. As comidas que aprendeu com a mãe e também aquelas que aprendeu no tempo que morou em Huambo, na Angola. Ela me contou que chegando no Brasil muita coisa precisou ser adaptada, ou por falta dos ingredientes ou porque uma vizinha lhe contou um segredo novo. A vida. A vida acontecendo e a comida, assim como a gente, se modificando. Memória que leva tempo para cristalizar e não pode ser registrada pelo algoritmo.
Hoje vejo que a mão mágica que ela tinha quando tocava as panelas sempre foi mais do que uma bênção dos céus: era identidade, registro e metamorfose. Um toque de si mesma naquilo que lhe contaram. Passar para o Caderno foi uma forma generosa de deixar seu legado, nossa história. É quase como um álbum de fotos de família que abrimos e lembramos daquele momento em que a mesa estava cheia de gente e ríamos enquanto alguém cortava o bolo e outro quebrava o pão do santo com a própria mão, o vô servia o vinho feito em casa, a vó me abraçava com o avental sujo de farinha e me contava como amassar o pão.

Hoje a vó está com 92 anos e muitos problemas de saúde que a impedem de cozinhar. Sua grande paixão pela cozinha vive nas histórias que ainda gosto de contar e no Caderno de Receitas.
Um Caderno que é cápsula do tempo. Que é, de fato, um lugar: aquele onde fomos muito felizes.
Por Amanda Santo





