Cores, cheiros e sabores. Quem nunca visitou um mercado durante uma viagem, está por fora das tendências de turismo. Os mercados entraram na lista dos pontos turísticos de destinos de todo o mundo. Isso porque um mercado não é só sobre comida. É muito mais. É sobre cultura, tradição, história, receitas de família… Um local de troca, onde pessoas de diversas classes sociais dividem o mesmo espaço. Onde o patrimônio imaterial de um povo se faz material, afinal, gastronomia é patrimônio. E buscando conhecer patrimônios gastronômicos, que os turistas passaram a incluir um passeio pelos mercados nas cidades para onde viajam.
Mercado Ver-o-Peso, Belém, Brasil
Já na chegada, me deparo com a diversidade das frutas da Amazônia. Verde, amarelo, marrom, vermelho, roxo. Uma verdadeira paleta de cores onde não há preocupação com ordem e combinação. Não existe do tom mais claro ao mais escuro. O que existe é uma mistura colorida e despretensiosa.
Um pouco mais à frente, um barulho oco e firme chama a atenção. Como se algo seco estivesse sendo quebrado. É na barraca da castanha-do-Pará que um menino de uns 20 anos retira com um facão a casca dura das castanhas. Uma após a outra, com a habilidade de quem faz isso desde criança.

Apesar do fascínio em observar como ele faz isso sem se machucar, um cheirinho de comida me chama para uma outra parte desse que é o maior mercado aberto da América Latina, o Ver-o-Peso, em Belém do Pará. Há 398 anos, o mercado preserva e propaga a cultura gastronômica amazônica.
Levada pelo cheiro, alcanço o setor das boieiras, que são cozinheiras que preparam pratos tradicionais da culinária paraense e alimentam milhares de pessoas diariamente. Uma festa para o olfato, a visão e, claro, o paladar. Maniçoba, tacacá, açaí com camarão e farinha, chega a dar água na boca só de lembrar.
Guardo com muito carinho as sensações que o Mercado Ver-o-Peso me provocou. Sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos da minha viagem à Belém. Foi lá que consegui realizar que estava num bioma diferente do meu, com uma oferta de produtos totalmente diversa do que estou acostumada no sul do Brasil. Talvez por isso me trataram tão bem. Senti que tinham orgulho em apresentar a cultura gastronômica do Pará.
Mercato del Pesce, Chioggia, Itália
Do outro lado do mundo, a experiência não foi a mesma. Há poucos meses, fui conhecer uma cidade italiana nos moldes de Veneza, com canais charmosos e muitos barcos coloridos. Também localizada na região do Vêneto, Chioggia tem uma forte ligação com o mar e, por isso, o seu mercado de peixes virou um atrativo do destino. Fui conhecer.
Como gastrônoma e apaixonada por gastronomia, fiquei encantada com a variedade de peixes e moluscos que nunca tinha visto. Alguns peixes, bem pequeninos, já vinham imersos em azeite de oliva. Outros, desidratados, ficavam colados num papel tipo manteiga. Curiosa, perguntava o nome e como podia preparar. Uma curiosidade genuína, que logo tive que engolir.
Ao perguntar a um dos vendedores (que muitas vezes são os próprios pescadores) se podia fazer fotos de seu pescado, ele não só me proibiu, como começou a dizer palavras de forma agressiva num dialeto incompreensível. Naquele momento cheguei a ficar chateada, até com raiva, mas hoje eu entendo a sua reação.

Overturismo
Quem já visitou o Mercado Municipal de São Paulo, com certeza passou pelas barracas de frutas e teve um vendedor insistindo para que provasse um pedaço de fruta recém fatiado, não é verdade? Esse gesto amigável, que faz parte de uma estratégia de venda, praticamente não existe mais nos mercados de comida das cidades mais turísticas do mundo. E uma palavra resume o motivo: overturismo.
O termo “overturismo” é recente, do ano 2010. Passou a ser usado com mais frequência a partir de 2017, quando o fluxo de turistas viajando mundialmente chegava perto de recordes históricos, com uma média de 1,2 bilhões de pessoas viajando internacionalmente, segundo dados da Organização Mundial de Turismo (UNWTO).
Mas, afinal, o que é overturismo?

O overturismo é quando um destino recebe um número tão grande de turistas que esse volume não apenas prejudica esse destino, como interfere de forma negativa na qualidade de vida da população local. Algumas vezes, o número de turistas é muito maior do que o número de habitantes, causando transtorno no trânsito, no gerenciamento de lixo, fazendo uso excessivo de água e energia, poluindo, e até deixando a vida dos locais mais cara.
Por isso cidades do mundo inteiro têm discutido soluções que possam amenizar o impacto do overturismo, e uma das estratégias é fazendo uma melhor distribuição desse turista ao longo do ano para que os destinos não sofram a pressão do turismo de uma vez só.
O caso de Barcelona
Mas existe algo que vai além das questões ambientais e de bem-estar das populações locais. O resultado do overturismo nos mercados tem se mostrado desastroso, e o melhor exemplo vem de Barcelona, uma das cidades mais visitadas da Espanha, que viu o boom do turismo acontecer depois de ser sede das Olimpíadas de 1992.
Somente no ano de 2024, a cidade de Barcelona recebeu 15,5 milhões de turistas, de acordo com números oficiais do governo catalão, o que corresponde a praticamente nove vezes o número de moradores. E essas pessoas obviamente vão conhecer o mercado de rua mais famoso da cidade, o La Boqueria.

O La Boqueria já viveu tanta história nos seus 800 anos de existência, que é praticamente inaceitável visitar Barcelona sem ir ao mercado. São quase 3 mil metros quadrados de espaço distribuídos entre 250 vendedores de jamón ibérico, frutas, verduras, queijos espanhóis, peixe fresco do Mediterrâneo e outros produtos regionais.
No entanto, com o aumento na quantidade de visitantes, que chega a somar 55 mil por dia (grande parte turistas), os feirantes têm testemunhado uma transformação do mercado. De um local habitual de compras dos moradores, o La Boqueria virou cenário de selfies e de venda de comidas e bebidas prontas para viagem, como smoothies, empanadas, etc.
O que isso quer dizer? Que o turismo excessivo ajudou a espantar a clientela local, fazendo com que os vendedores não tivessem outra opção a não ser adaptar seus produtos para atender a demanda turística. Uma perda para a cultura gastronômica, que vai pouco a pouco perdendo a sua identidade.
Tem solução?
Responsáveis pelo turismo de Barcelona têm estudado como solucionar esse problema, o que não é tarefa fácil, afinal, como colocar regras em um local aberto onde a entrada é gratuita e os vendedores dependem de público para manter seus negócios? Guias turísticos têm sido orientados a reduzir o número de integrantes de grupos que levam ao mercado, numa tentativa de controlar o overturismo dentro do perímetro do mercado.

Se isso vai funcionar ainda não se sabe, mas políticas públicas que protejam os comerciantes e ações que tragam de volta o cliente habitual podem, quem sabe, devolver ao mercado La Boqueria sua originalidade, aquela que lá no início, antes do overturismo, fez com que ele se tornasse tão procurado.
Depois de entender um pouco mais sobre as dificuldades que os feirantes do La Boqueria passam e como o overturismo pode dar um novo rumo aos mercados, acabei tendo mais empatia com o vendedor de peixes do mercado de Chioggia. Um aprendizado e tanto não só pra mim, mas também para outras cidades que têm apostado no turismo como solução para sua economia.
Turismo é muito bom, pra quem visita e quem recebe, mas ele tem que ser bom principalmente para a população local.
Por Leyla Spada





