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O Nhoque e eu

Nhoque de batata baroa com molho de tomate rústico, muçarela de búfala e pesto de manjericão feito pelo Chef Daniel Castro

novembro 23, 2020
em Gastronomia

Com todo respeito a João Gilberto, modificarei parte da letra de uma música para me expressar, “quem não gosta de Nhoque bom sujeito não é…”. Sejamos sinceros, um bom nhoque é quase um sonho na sua boca. Não só pelo fato dele ser um travesseiro de sabor, mas também porque provavelmente te traz lembranças!

Nhoque me lembra da minha mãe e almoços de domingo quando levávamos o televisor para a cozinha e comíamos assistindo qualquer coisa que estivesse passando, e meu pai fazia a mesma piada de sempre, “Nhoc” enquanto apertava minha coxa fingindo ser uma mordida. Certamente você tem alguma lembrança tão boba e gostosa quanto a minha!

Lembranças à parte, falarei da minha experiência como cozinheiro e o nhoque! Mas antes é necessário saber um pouco de mim. Eu era uma criança metida, sempre gostei de entender como as coisas funcionavam e uma vez desmontei um televisor (provavelmente aquele que levávamos para a cozinha aos domingos) e montei novamente só para ver como era. Impressionante e curioso foi que quando remontei a tv sobraram algumas peças mas ele continuou funcionando… Continuando, eu quero sempre entender o motivo de algo dar certo ou errado e aplico isso diariamente na minha cozinha, e me encanta a quantidade de variáveis que podem influenciar para um nhoque ser bom ou ruim.

Vamos exemplificar usando algumas poucas variáveis. Um bom nhoque deve ser leve, quase desmanchar na boca, e para que essa textura seja atingida é primordial que se utilize o mínimo de farinha possível. Mas para se utilizar pouca farinha, preciso que meu purê esteja com pouca umidade e, para isso, dependo de outras variáveis como a quantidade de água que havia no insumo, a maneira que ele foi coccionado, o tipo de farinha que será utilizado e, acreditem em mim, até a umidade do ar pode influenciar na produção dessas delícias. Pode parecer loucura, e talvez seja, mas eu realmente fico de olho nesses fatores e mais!

Mas por que estou falando tudo isso? Porque aprendi muito fazendo nhoque! Aprendi que entender a maneira como os alimentos se comportam melhoram o resultado final e poupam muito tempo quando se consegue entender e controlar algumas variáveis. Definitivamente este entendimento lapidou muito meu trabalho.

Mas o nhoque me ensinou muitas coisas mais. Durante a pandemia, todos meus trabalhos com eventos foram cancelados e, assim como muitos outros colegas de profissão, tive que me adaptar e iniciei um trabalho com delivery de marmitas. E adivinhem qual o prato mais vendido deste período? Claro… Nhoque!!! Isso só me mostrou que dar importância a alguns detalhes e dominar algumas receitas pode ser o diferencial entre sucesso ou passar fome.

Claro que meu Nhoque ainda não chegou perto daquele Nhoque que minha mãe fazia ou do que a sua avó produzia de olhos fechados sem nem pensar no que estava fazendo e, muito menos, se preocupando com as variáveis. Essas memórias afetivas e gustativas serão para sempre mais fortes do que qualquer sabor que sinta hoje, mas continuarei estudando e aprimorando para que num futuro seja o meu nhoque que esteja nas memórias de alguém!


Por Daniel Castro, chef de cozinha.

Tags: cozinheirolembrançasmemóriasnhoque

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