Ensopado de batata, carne, ervas e vegetais. Panqueca de batata. Purê de batata com couve e repolho. Cebolinho e leite coalhado na batata. Salsicha e batata. Cansou de batata? Se ainda não, você deve entender muito bem o coração de um irlandês quando o assunto é esse tubérculo fascinante: prazer irrestrito e abundante por batata.
Ali em cima eu listei os ingredientes de alguns dos pratos mais tradicionais da Irlanda, o Irish Stew, o Boxty, o Colcannon e por aí vai. A batata é a base de todos eles mesmo, mas embora soe delicioso — hmm realmente é! — essa predominância também carrega uma história profundamente triste do país: a da época em que só se comia batatas porque 80% das terras irlandesas eram destinadas a servir à coroa britânica. Colonialismo, o nome. Monocultura, também.

O resultado desse combo foi aquele tipo de tragédia anunciada: uma praga que dizimou as batatas e condenou a população da Irlanda à maior catástrofe humana da Europa. Fome, morte por inanição e emigração em massa para outros países.
Mas, como eu ia dizendo… batatas. Vamos voltar um pouquinho na história para entender como uma população inteira (na época, cerca de 9 milhões de irlandeses) acabou tão dependente desse alimento.
A Batata
De fácil cultivo — não precisa de um grande pedaço de terra para plantar —, gostosa e nutritiva — com batata e leite o trabalhador ficava minimamente sustentado durante o dia.
Isso ficou parecendo até propaganda da Nestlé, se ela vendesse batatas. Mas juro que é verdade: a batata faz tudo isso mesmo. Por isso no século 19 ela se tornou tão importante para a alimentação da população irlandesa, composta majoritariamente por famílias agricultoras que sequer eram donas das terras onde trabalhavam. Sim sim, o colonialismo de que eu falava. A quem pertenciam as terras, o que era plantado e em que condições são fundamentais para entender a fome monumental que assolou a Irlanda.

Na época o país era colônia britânica e, claro, atendia exclusivamente aos interesses da coroa. A maioria das terras pertenciam a latifundiários ingleses que arrendavam para irlandeses que, por sua vez, dividiam o espaço e arrendavam arrendavam arrendavam. Na ponta, o agricultor dono de nada — devendo quase tudo — plantava basicamente grãos para subsidiar a indústria inglesa. E isso previsto em lei: exportação exclusiva de commodities para a terra da rainha Vitória.
Política colonial muito bem-sucedida: obter matéria-prima barata, mão de obra barata e ainda gerar um atraso econômico em uma população rural cada vez mais estrangulada pela dinâmica de arrendamentos. Os 20% de terras restantes para a subsistência das famílias trabalhadoras eram quase todos ocupados por batata, a grande salvadora da pátria. Mas até isso foi dilacerado.
No processo colonial de plantio, os camponeses tiveram que abandonar seus saberes tradicionais, métodos e cultivos ancestrais, para adotar métodos mais “modernos”, que acompanhavam as “inovações” da Revolução Industrial. Aspas. Essa “modernidade” impunha uma fertilização que tinha como efeito colateral o enfraquecimento imunológico das, adivinhe só… batatas.
Sem qualquer defesa, a batata ficou à mercê de um fungo chamado Phytophthora infestans, que causou uma doença arrasadora. Resultado: as batatas irlandesas foram dizimadas numa época em que era o único alimento sólido consumido por 4 em cada 10 irlandeses. Numa época em que um terço da população sobrevivia só por causa da batata, todo santo dia.
Fome. Miséria. Fuga. Destruição.
As marcas da história
Essa catástrofe, conhecida como Grande Fome da Irlanda, durou anos, foi de 1845 a 1849. Depois, a Irlanda se recuperou a duras penas, as batatas também. Demorou mais um século para o país deixar de ser colônia e se tornar independente. Hoje, quase dois séculos após a Grande Fome, é referência na produção de alimentos como a batata, presente em quase todos os pratos típicos, como aqueles que te contei na abertura desta reportagem.

Recentemente estive viajando pela Irlanda e pude ver de perto (e até provar!) essa tradição temperada com ervas e memórias locais. Memória: eis o ingrediente que torna tudo tão especial nesse país apelidado poeticamente de Ilha Esmeralda. A dureza da história que contei aqui não está só nos livros escolares e nos museus, mas nas mais variadas conversas e expressões artísticas espalhadas pelas cidades.
Lá, não há como ignorar o passado. Eles nem querem ignorar o passado: querem lembrar para que não se repita.
Uma das manifestações mais impactantes que encontrei foi este monumento em metal instalado em um dos parques mais centrais de Dublin.

Numa das entradas do Stephen’s Green, a fome é escancarada como expressão artística e histórica. A obra Famine é um memorial criado por Edward Delaney em homenagem às vítimas da Grande Fome. As figuras raquíticas e distorcidas imploram por sopa e salvação. Um cão está posicionado ao lado delas, lançando uma lembrança sobre os animais também impactados pela tragédia.
O encontro com esta escultura é fortíssimo. Assim como é a resiliência das pessoas — e das batatas — nascidas na Irlanda.
Por Amanda Santo





