“De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo. Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver um ovo nunca se mantém no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto um ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo.”
Na sua última (e icônica) entrevista dada antes de morrer, Clarice Lispector confessou que tinha um favorito entre seus filhos literários. Dos romances mais aclamados aos contos mais breves e experimentais, ela escolheu O ovo e a galinha. “Eu não compreendo esse conto”, disse.
Não compreender. Amar o mistério, o descontrole. Era este o critério de arrebatamento de uma das maiores escritoras que já se teve notícia.

Tudo começa assim: uma pessoa (a narradora) está na cozinha. Ela vê um ovo sobre a mesa. Desse olhar, a história do mundo escorrega e dispara um fluxo contínuo de perguntas sem respostas e respostas sem perguntas sobre o ovo. E sobre a vida.
“– O ovo é invisível a olho nu. De ovo a ovo chega-se a Deus, que é invisível a olho nu. – O ovo terá sido talvez um triângulo que tanto rolou no espaço que foi se ovalando. – O ovo é basicamente um jarro? Terá sido o primeiro jarro moldado pelos etruscos? Não. O ovo é originário da Macedônia. Lá foi calculado, fruto da mais penosa espontaneidade. Nas areias da Macedônia um homem com uma vara na mão desenhou-o. E depois apagou-o com o pé nu.“
Fico pensando em Clarice tendo a ideia para este conto. Estava na cozinha? Gosto de pensar que sim.
Mesa redonda de madeira escura, ela está sentada numa das quatro cadeiras de palhinha natural. A escritora segura um ovo, olha, se relaciona com ele em silêncio. Rabisca no verso de uma nota fiscal os gatilhos pensamentos lembranças de uma conversa lacônica, o ovo o ovo a galinha. Ela está tomando café? Sim, café. Cigarro aceso, cinzeiro ao lado. O verso da nota (é de padaria) já está cheio. Termina a última ideia no cantinho esquerdo de um guardanapo de papel. Clarice apaga o cigarro. Levanta e guarda os dois pedaços surrados de papel agora valiosos na gaveta das anotações. Isso deve virar alguma coisa depois…
“Eu tomo notas. Depois que eu já tomei bastantes notas, o livro está praticamente pronto para ser montado.” — Clarice durante outra entrevista em que responde como é seu processo criativo.

O ovo e a galinha é um dos contos presentes em Felicidade Clandestina, livro publicado pela primeira vez em 1971.
Se Clarice estava ou não na cozinha vendo o ovo e escrevendo o ovo nunca saberemos, então vou me permitir ficar com esta cena. A cozinha, este lugar alquímico, já provou ser mais do que o lugar onde se prepara refeições ou se mata a fome. Já falamos aqui no Comida com História sobre o poder agregador e político deste espaço inclassificável. Agora vamos espiar pela fechadura o poder artístico das cozinhas que são bem mais do que cozinhas.
São portais surrealistas.

A xícara vazia, a torradeira, os utensílios pendurados como corpos flutuantes. Uma cozinha aparentemente comum, não fossem os acontecimentos que nela se desenrolavam. As fotos e os desenhos colados nos armários de madeira dão sinal de que este não é apenas um lugar útil. É um espaço de afeto, memória e identidade. Mais do que isso: é um refúgio de criação.
Esta é a cozinha de Leonora Carrington, um dos maiores nomes do surrealismo. A inglesa nascida em Chorley viveu a maior parte da sua vida na Cidade do México, onde produziu a maioria de suas obras. Extremamente ligada ao místico e ao incompreensível, Leonora usava a experiência culinária como inspiração e ritual para suas pinturas, quase como se uma prática fosse a extensão da outra — fronteiras que a artista borrava ainda mais quando pintava na própria cozinha ou usava esse lugar como elemento central de suas pinturas.

Em “A cozinha aromática da vó Moorhead”, de 1975, milho, berinjela, alho, pimentão e repolho adornam a mesa onde criaturas fantásticas se reúnem. Outra personagem mexe uma panela de barro que está no fogo, outra mói grãos em uma pedra. Um pássaro gigante e um bode observam a cena, ou parecem fazer parte dela. Esse universo tão singular de Leonora, presente em todas as suas pinturas, aqui evoca algo além: a ancestralidade culinária. A magia contida no cozinhar e no comer.
Junto com sua grande amiga e também ícone surrealista Remedios Varo, Leonora executava cotidianamente essa conexão com o invisível: muitas vezes, elas se reuniam na cozinha para elaborar rituais de bruxaria e cura xamânica, pronunciando orações, feitiços e encantamentos.
Uma devoção ao que não se pode entender, mas também um retorno à infância: a alquimia fez parte da vida de Leonora desde os tempos de Chorley. No México, além dos rituais espirituais e das pinturas, não era raro ver a artista reproduzir as receitas favoritas de quando era menina, como Bubble and Squeak, um prato tradicional inglês à base de batata, cenoura e repolho.

Cozinhar para os outros era um resgate de si mesma. Por isso os banquetes servidos para amigos na mesa de jantar. O marido e os filhos de Leonora já sabiam e entravam no ritual: a mesa era o lugar sagrado do encontro, e o encontro é sempre a origem e o fim do processo criativo.
Um processo de chuva incessante, de entendimento fluido, de nome escorregadio. Não há nome para o que Leonora pintava. Também não há diferenciação entre os ambientes onde criava: há a cozinha, há o ateliê, a sala de jantar, sim. Podemos dar esses nomes, se quisermos. Mas a verdade é que na casa da artista todos os espaços faziam parte de um mesmo fluxo artístico.
Não à toa, o ateliê da surrealista tem a cara de uma cozinha. Assim como sua cozinha é tão ateliê.


Esse sincretismo energético e estético pode ser visto ao vivo. Hoje, essa mesma casa onde Leonora Carrington viveu com a família, praticou rituais culinários, xamânicos e artísticos, virou museu. Está restaurada, arrumada como na época e aberta à visitação. É como se a artista ainda estivesse ali. É como se suas criaturas fantasmagóricas e animalescas ainda rondassem a cozinha, levassem as ervas frescas até o nariz para uma longa inspiração, derrubassem no caldeirão uma infinidade de vegetais enquanto Leonora prepara o chá quente ou serve uma dose de tequila, dependendo para que propósito se faz o feitiço.
Por Amanda Santo





