A sala feita toda de madeiras escuras é pequena e mal iluminada. Com sete clientes sentados e quatro em pé, o ambiente está lotado. Conversas entre velhos amigos e recém conhecidos fluem animadas pelas cervejas despejadas de oito torneiras e pelo calor da lareira acesa para compensar o frio congelante de uma temperatura que lá fora logo logo estará abaixo de zero. No inverno londrino, o sol se põe antes das 17h, por isso o fim de tarde tem cara de noite.

Eu e minha companheira estamos sentados no cantinho de uma das duas mesas coletivas disponíveis no local, bebendo uma pint cheia até a boca com uma british ale marrom e amarga servida na fria temperatura ambiente (pra quem não sabe, pint é como os ingleses chamam informalmente os copos com cerca de meio litro de cerveja que são servidos nos pubs). Sem luz suficiente para conseguir ler o livro recém comprado numa livraria próxima, minha atenção vai para os dois homens que acabaram de pedir licença querendo dividir a mesa conosco.
– Charles Dickens, Mark Twain, Arthur Conan Doyle e até o Samuel Johnson frequentavam esse pub!, diz quase gritando o mais velho deles orgulhoso, num sotaque que não deixa dúvidas sobre sua origem britânica.
A frase tira um sorriso largo do rosto do outro homem, um médico japonês que havia chegado a Londres no dia anterior para um congresso. – Que honra!, responde o médico enquanto varre a salinha escura com um olhar que não precisa mais que poucos segundos para passar por todo o ambiente. Tempo suficiente pro inglês tomar mais um gole de sua pint, secar o bigode com as costas da mão direita e seguir na história…
– Eu vivia no interior da Inglaterra, me mudei pra Londres há uns 40 anos e, como moro aqui perto, passei a frequentar esse pub.
Os dois não se conhecem, mas a intimidade e aconchego do lugar facilitam a conversa que, em poucas palavras, deixa clara a importância dos pubs na cultura britânica. Muito mais do que bares, pubs são ambientes comunitários e históricos por aqui. O próprio termo ‘pub’ é uma abreviação de public house, ou seja, casa pública. E ainda que em regiões muito turísticas seja inevitável a presença de pessoas, digamos, estranhas ao ambiente (como nesse caso eu e o médico japonês), os pubs costumam ser frequentados basicamente por quem vive ou trabalha por perto.
O próprio nome de public house surgiu porque historicamente esses lugares sempre serviram também como centros comunitários e até de reuniões políticas. Pubs não cobram entrada nem exigem consumo. É muito comum entrarmos num pub, por exemplo, apenas para usar o banheiro e logo sair (nós mesmos fizemos isso várias vezes durante nossos passeios por Londres). E apesar do termo public house surgir em registros pela primeira vez no final do século 17, é fácil encontrar pubs ainda mais antigos, alguns com mais de 500 anos de história.
Por isso visitar um pub significa mais do que entrar num bar para beber. Significa achar uma forma de voltar no tempo, ouvindo a madeira ranger a cada passo dado em direção ao balcão do bar, apreciando quadros que às vezes permanecem por séculos pendurados no mesmo local, e viajando por histórias contadas por figuras locais sobre personalidades marcantes que muitas vezes passaram por esse mesmo lugar.
Foi atrás dessas histórias que fiz um roteiro de pubs para conhecer. Existem inúmeros outros, muitos inclusive bem mais modernos. Mas se você gosta de uma boa história para acompanhar os goles de uma pint, acho que vai gostar dessa lista dos meus três pubs preferidos:
The Lamb
Construído em 1720, o pub The Lamb fica na região de Bloomsbury, onde o grupo de intelectuais conhecido como Bloomsbury Group viveu na primeira metade do século 20. Entre os integrantes mais famosos desse grupo estava a escritora Virginia Wolf. Impossível sentar numa das mesas em volta do bar em forma de meia lua, tirar um livro da mochila e não imaginar quais seriam os assuntos das conversas que a escritora e seus colegas tinham ali. Essa tradição literária é mantida hoje nos concursos de poesia que o pub realiza.


The Lamb and Flag
O segundo lugar dessa lista fica numa ruelinha meio escondida da movimentada região de Covent Garden. E olhando de fora, o The Lamb and Flag nem chama muito a atenção. Mas bastam alguns passos lá dentro pro som das tábuas escuras e gastas rangendo te levarem para o século 19, época em que o escritor Charles Dickens também caminhava por ali. Nesse pub o bar fica entre o pequeno salão com mesas altas na entrada e um salão ainda menor nos fundos, com mesas baixas junto à lareira. Chegue cedo, garanta um lugar e faça um brinde deixando o barulhinho da lenha estralando e o aspecto antigo do ambiente te transportarem no tempo…


Ye Olde Cheshire Cheese
Faltando dois dias para o fim de nossa viagem, achava que nenhum pub me encantaria tanto quanto o The Lamb and Flag. Até que num fim de tarde já escuro, caminhando pela Fleet St, uma rua movimentada e nem tão charmosa quanto outras de Londres, encontramos o pub Ye Olde Cheshire Cheese. Apesar da casa ficar nessa avenida com cara de século 21, a entrada é ao lado, através de uma ruela estreita e super escura que, durante o inverno úmido e frio, fica ainda mais aconchegante. O pub já existia antes do grande incêndio que atingiu Londres em 1666. E também foi destruído pelo fogo junto com boa parte da cidade. Reconstruído em 1667, permanece com praticamente a mesma decoração desde então.

Entrando no pub é possível ver uma casa com vários ambientes. Ficamos já no primeiro deles – justamente aquele onde o aposentado britânico fez amizade com o médico japonês sentados numa mesa coletiva ao meu lado. Assim como em boa parte dos pubs, nesse também há um dining room, ambiente com mais cara de restaurante onde os clientes podem jantar com tranquilidade. Por mais que pubs sejam tão relacionados com cerveja e bebidas, a cozinha também costuma ser uma atração à parte, com pratos típicos que vão muito além do tradicional fish and chips. É pra lá que vão os dois novos amigos, esvaziando um pouco mais o pequeno salão onde estamos. Nós preferimos ficar e jantar por aqui mesmo: escolhemos um hambúrguer vegano delicioso para acompanhar mais uma pint.
Unindo cervejas, pratos tradicionais, séculos de história e um forte laço com as comunidades onde estão inseridos, os pubs se revelam lugares obrigatórios para quem quer conhecer verdadeiramente Londres e um pouco mais da cultura britânica.
Por Gustavo Schwabe.