Ninguém come comida de verdade sem agricultura. E não é preciso ser expert no assunto pra saber que para a agricultura acontecer quatro elementos são essenciais: semente, solo, água e ar. Sem eles, nada de alimento!
Mas já parou pra pensar em como esse alimento é produzido? Dependendo do tipo de agricultura empregado, a produção de alimento pode ou não ser saudável – pra quem come, pra quem planta e para o meio ambiente.
Como já vimos na primeira reportagem dessa série, a agricultura convencional é uma grande causadora de consequências desastrosas – para a sociedade, consumidores e natureza. E é ela a responsável pela produção da maioria do trigo, milho e soja no mundo, insumos que servem como base para a produção de tantos alimentos processados e ultraprocessados.
Não é de se estranhar então que existam tantos pesquisadores e estudiosos na defesa de práticas alternativas para a agricultura convencional. A mais robusta e defendida por sua longa lista de vantagens e benefícios é a agroecologia.
Agroecologia

O Grupo Parlamentar Multipartidário sobre Agroecologia do Reino Unido (The All Party Parliamentary Group on Agroecology) traz uma abordagem mais ampla sobre o tema, apresentando a agroecologia como um sistema de agricultura que:
– preserva solos, água, energia e recursos genéticos;
– fixa nitrogênio e usa energia renovável;
– usa, quando possível, os recursos da fazenda, incluindo os biológicos;
– minimiza a produção de poluentes como nitratos e gases de efeito estufa;
– diversifica paisagens locais, biota e economia;
– administra ao invés de diminuir ou substituir relações ecológicas;
– se ajusta aos ambientes locais e empodera pessoas locais;
– valoriza benefícios a longo termo;
– valoriza saúde (humana, planta, animal e ecossistema).
Mas com tantas vantagens, por que a agroecologia não é o sistema dominante? Bem, essa não é uma pergunta simples, pois são muitos os aspectos que levaram à agricultura convencional, que atualmente rege a produção em países como os Estados Unidos, China, Índia e Brasil, os maiores produtores agrícolas do mundo.

A realidade é que a agricultura utilizada nesses países é baseada na produção de commodities, como já foi mencionado anteriormente – milho, trigo e soja – e, nesse caso, o que importa é a quantidade produzida para se tirar o maior lucro possível. Essa visão mais focada no dinheiro acaba por não levar em consideração elementos importantes como impacto ambiental, desigualdade social e dependência de recursos não renováveis.
E é nesse ponto que a agroecologia entra como uma alternativa mais completa, com um sistema multifacial que ultrapassa os limites da produção de alimentos, entrando nos campos sócio-político, ecológico e tecno-produtivo e sócio-econômico e cultural.
Marta Rivera-Ferre, professora pesquisadora do Conselho Nacional Espanhol de Pesquisa, que foca seus trabalhos em sistemas alimentares, explica que a dimensão política da agroecologia busca a construção de alternativas para a agricultura industrial por meio de ações coletivas. Segundo ela, a dimensão ecológica e tecno-produtiva da agroecologia foca na fazenda e no desenho de agroecossistemas baseados em princípios ecológicos, enquanto a dimensão sócio-econômica e cultural é centrada no desenvolvimento endógeno das comunidades rurais.
E o que tudo isso quer dizer? Que o termo ‘agroecologia’ não é somente uma alternativa mais sustentável para a agricultura convencional, mas ele hoje significa a junção de disciplinas científicas, práticas agrícolas e movimentos políticos e sociais, cujo objetivo é mudar o sistema atual.
A figura abaixo dá uma visão das três modalidades nas quais a agroecologia se divide: como disciplina científica tem sob o seu guarda-chuva o campo de estudo, a ecologia do sistema alimentar e a ecologia do agrossistema; já como prática agrícola, a agroecologia compreende as técnicas; e como movimentos políticos e sociais, a agroecologia engloba o ambientalismo, a agricultura sustentável e o desenvolvimento rural. Uma visão realmente abrangente sobre a agroecologia.

Agroecologia como disciplina científica
“Como uma ciência, a agroecologia é a aplicação da ciência ecológica ao estudo, desenho e administração de agroecossistemas sustentáveis” – Miguel Altieri.
Apesar do engenheiro agrônomo Miguel Altieri ter criado uma definição para agroecologia como uma disciplina científica, não pode ser considerada como uma ciência sem a aplicação correta da palavra “ciência”, a qual, de acordo com o critério convencional científico de Robert King Merton de 1973, precisa ter comunalismo, universalidade, desinteresse, originalidade e dúvida. A conclusão é que a agroecologia atende essas normas.

Agroecologia como prática agrícola
As práticas agrícolas da agroecologia são baseadas na biomimética, onde processos naturais são copiados a fim de fortalecer e harmonizer os sistemas e plantio. Fertilidade do solo, gestão de matéria orgânica, preservação da fonte e técnicas para sistemas de baixa entrada externa (agrotóxicos e pesticidas) são levadas em consideração para melhorar a agricultura tradicional e indígena.

Agroecologia como movimento político e social
De acordo com os pesquisadores Michael Pimbert e Nina Isabella Moeller, a agroecologia como um movimento social promove alternativas viáveis ao regime alimentar dominante. Essas alternativas focam em segurança alimentar, soberania e autonomia, e são orientadas em ações baseadas em objetivos como desenvolvimento sustentável e agricultura sustentável. Elas praticam inclusão e são focadas na comunidade.

Ao longo dos anos, a agroecologia tem desenvolvido dimensões diversas de acordo com resultados na ciência, política, economia e eventos sociais. Entre 1930 e 1970, a agroecologia era considerada apenas uma disciplina científica. Depois de 1970 até os anos 2000, ela ganhou espaço também dentro das práticas agrícolas. Desde então, apareceu conjuntamente como um movimento político e social, que pode gerar mudanças na direção de um sistema alimentar mais sustentável.
(Se ainda não leu, leia aqui a segunda reportagem da série).
(Leia aqui a quarta e última reportagem da série).
Por Leyla Spada





