A pressão no olho direito é tão forte, que a sensação é que uma faca está fincada nele. Pressiono o olho com bastante força na esperança que a dor alivie, mas é só tirar o dedo e ela volta, exatamente como era antes. A luz incomoda, o barulho machuca, os odores pioram ainda mais o enjoo que acompanha a dor. É preciso ficar de olho fechado, paradinha, esperando que ela suma, o que pode durar um dia ou mais. É uma dor incapacitante, que me faz parar completamente as minhas atividades do dia a dia.
Quem nunca passou por uma crise de enxaqueca ou uma dor de cabeça muito forte, talvez não se identifique com meu relato inicial do texto. Mas eu posso afirmar: é horrível e eu tenho vivido isso todos os meses, por anos, na maioria das vezes antes ou ao final do período menstrual. Mas algumas vezes ela vem sem data certa e sem avisar, rasgando a minha alegria e me fazendo não suportar a situação, não tendo outra alternativa senão cancelar compromissos e deixar o trabalho e os afazeres da casa pra depois.
Friedrich Nietzsche, o famoso filósofo alemão, sofria terrivelmente de dores de cabeça, e em um de seus livros, ‘A Gaia Ciência’, revelou onde sua dor o levava:
“Somente a grande dor, a dor longa e lenta que leva o seu tempo, aquela em que somos, por assim dizer, queimados com lenha verde, só essa nos obriga a descer às nossas últimas profundezas… Eu duvido que tal dor nos torne ‘melhores’; mas sei que nos torna mais profundos”.
Talvez somente quem sofre com enxaqueca e dor de cabeça compreenda o que ele quis dizer.
Mas não entrando nas profundezas da dor, basta buscar um pouquinho mais de informação sobre dor de cabeça para aprender que existem vários tipos, sendo as mais comuns a cefaleia e a enxaqueca, que podem se manifestar de formas diferentes. Assim como as dores não são similares, suas causas também variam. Alterações hormonais, depressão, exercício físico em excesso, stress e inclusive a alimentação podem ser gatilhos para dores de cabeça.

Segundo a nutricionista clínica Luísa Wendhausen Cavallazzi Gentil, a dor de cabeça é um sintoma muito comum e multifatorial, e a alimentação exerce um papel decisivo tanto na prevenção quanto no desencadeamento das crises.
Luísa explica que existem alimentos mais propensos a desencadear dores de cabeça e enxaquecas, como queijos curados, vinho tinto, embutidos, carnes defumadas, molhos fermentados como shoyu e vinagre balsâmico fazem parte de grupos alimentares que promovem gatilhos, mas que nem todo mundo que os consome reage igual.
Além dos já citados, ela complementa a lista com chocolate, adoçantes artificiais (aspartame, sucralose, …), glutamato monossódico (MSG) e alimentos que possuem nitratos e nitritos (salsicha, presunto, salame, bacon, …). A cafeína também entra nessa lista. “Tanto seu excesso como a sua abstinência podem causar dores de cabeça”. Lembrando que a cafeína está não somente no café, mas nos chás, energéticos e refrigerantes tipo cola.

E faz sentido essa relação dor de cabeça e alimentação: não é incomum a gente escutar pessoas reclamando de dor de cabeça após tomarem vinho tinto ou quando não tomam café.
Mas como a alimentação tem esse poder de causar e evitar dores de cabeça?
A nutricionista Luísa diz que a alimentação influencia diretamente a vasodilatação cerebral, o nível de glicose no sangue e os processos inflamatórios, três mecanismos muito relacionados às dores de cabeça e enxaquecas, e que uma alimentação equilibrada pode sim mudar o quadro de quem sofre dessas dores.
“A alimentação adequada pode estabilizar os níveis de glicose, evitando hipoglicemias (queda de açúcar no sangue), que são gatilhos. Ela pode reduzir inflamações sistêmicas, evitar deficiências nutricionais que aumentam a excitabilidade neuronal e facilitam a dor. Além de melhorar a circulação cerebral e reduzir o estresse oxidativo, comum em enxaquecas crônicas”.

De acordo com ela, não adianta buscar o plano alimentar que deu certo para outra pessoa, pois o tratamento é altamente individualizado, já que as dores de cabeça e enxaquecas podem ser causadas por intolerâncias alimentares, desidratação, além dos outros fatores que já mencionei no início da reportagem. No entanto, Luísa afirma que há diretrizes gerais que ajudam na maioria dos casos:
• Alimentação rica em frutas, verduras, grãos integrais, oleaginosas e peixes gordos.
• Baixo consumo de ultraprocessados e bebidas adoçadas.
• Fracionamento em 5 a 6 pequenas refeições por dia, evitando longos períodos de jejum.
• Hidratação adequada.
• Redução de álcool e cafeína.
“Esse padrão é muito próximo da dieta anti-inflamatória mediterrânea, reconhecida por reduzir a frequência e intensidade das crises em estudos clínicos”, diz. Mas tem mais. “Sono e horários regulares são também fundamentais. Dormir pouco, trocar o horário das refeições ou pular o café da manhã são fatores clássicos de enxaqueca”, completa a nutricionista.
Pra quem, como eu, vive tentando descobrir a origem da sua dor de cabeça, vale observar se a ingestão de alguns alimentos pode desencadear crises. E não se esqueça: é fundamental uma consulta com um neurologista pra descartar doenças mais sérias e diferenciar a dor de cabeça comum da enxaqueca.
Por Leyla Spada





